Presença começa em uma casa vazia, onde a câmera se move de forma inquietante, observando longamente os espaços como se buscasse algo oculto. As tomadas são longas, deliberadas, e os personagens entram e saem do quadro como se a câmera não estivesse ali para acompanhá-los, mas para observá-los em segredo. Quando uma família se muda para o local, tudo parece normal, exceto por Chloe (Callina Liang), a filha adolescente, que encara diretamente a câmera, e por um pintor que evita um dos cômodos. Aos poucos, fica claro que a câmera não é apenas uma observadora passiva, mas uma presença silenciosa que participa dos acontecimentos, e à medida que a obra avança, sua intenção se torna cada vez mais difícil de ignorar.
Filmes de fantasmas e casas assombradas sempre carregaram um fascínio peculiar, transitando entre o medo do desconhecido e a forma como o passado - ou o futuro - insiste em se manifestar no presente. Desde os clássicos góticos até produções contemporâneas mais sutis, essas histórias exploram o isolamento, a culpa e a presença constante de algo que pode ou não ser real. Presença (2024), de Steven Soderbergh, se insere nessa tradição, mas subverte expectativas ao utilizar sua estética enxuta e abordagem experimental. Filmado de forma quase inteiramente subjetiva, o longa acompanha a perspectiva de uma entidade invisível que observa e influencia os acontecimentos dentro de uma casa moderna, onde segredos e tensões familiares emergem de maneira cada vez mais inquietante.
Soderbergh é conhecido por ser um cineasta inquieto, por caminhar facilmente entre o independente e o mainstream sem nunca abandonar sua identidade experimental. Desde Sexo, Mentiras e Videotape (1989), que o colocou no mapa, até filmes como Contágio (2011) e Kimi (2022), sua carreira é marcada por uma abordagem clínica e observacional, muitas vezes explorando paranoia e vigilância. Presença surge dessa mesma inquietação, impulsionado por sua própria experiência com a ideia de sentir algo no ambiente sem conseguir explicá-lo. A escolha estilística mais marcante é da perspectiva subjetiva, que aqui não é apenas um truque visual, mas uma maneira de transformar o espectador em parte da narrativa, forçando-o a habitar esse espaço como uma presença silenciosa que testemunha e, talvez, influencia os eventos.
A trama acompanha os pais Rebecca Pyne (Lucy Liu), Chris Pyne (Chris Sullivan) e o casal de filhos, Chloe (Callina Liang) e Tyler (Eddy Maday), que se mudam para essa nova casa, tentando um recomeço. A casa, moderna e impessoal, parece espaçosa demais, carregando um vazio que nunca se preenche. A câmera, assumindo o ponto de vista de algo invisível, desliza pelos cômodos revelando coisas e captando tensões que vão muito além da mudança de endereço. Chloe, além de lidar com o trauma da morte repentina de sua melhor amiga, lida também com o distanciamento de sua mãe. Conforme os dias passam, a presença silenciosa que acompanha a família parece cada vez menos passiva, e a sensação de que algo está à espreita se torna inevitável. Mas o que assombra aquele espaço não é exatamente um fantasma no sentido clássico, e sim a própria natureza das relações humanas, onde o não dito e os ressentimentos pairam no ar como espectros impossíveis de afastar.
É uma história conduzida com frieza e precisão, evitando sustos convencionais ou clichês do gênero. O horror na obra emerge da imobilidade, dos silêncios prolongados, do desconforto de ser observado. O uso rigoroso da câmera como um observador invisível amplia essas sensações, nos fazendo compartilhar da mesma ideia de impotência que as personagens experimentam. Me fez pensar sobre que a verdadeira assombração pode estar do outro lado da tela.
A casa, por si só, ela vai se tornando um espaço de ansiedade crescente, não pelo que esconde, mas pelo que expõe: um lar que deveria ser um refúgio, mas que nunca parece verdadeiramente habitado. Essa abordagem minimalista do tempo e da perspectiva remete a filmes como Jeanne Dielman (1975), de Chantal Akerman, onde a observação prolongada transforma gestos cotidianos em algo sufocante, revelando o peso invisível do espaço e da rotina sobre seus personagens. Mas se a obra de Chantal exige mais de três horas para criar essa atmosfera opressiva e hipnótica, Presença alcança um efeito semelhante dentro de sua duração enxuta de 85 minutos, condensando seu desconforto em uma experiência mais imediata, porém igualmente inquietante. Assim como no clássico de Akerman, o longa de Sodebergh utiliza a lentidão e a repetição para criar um senso de inquietação expansiva, tornando cada cena uma experiência carregada de densidade silenciosa.
No fim, mesmo que algumas perguntas fiquem sem respostas, Presença se mostra um exemplar satisfatório de casa assombrada. Ele não é apenas um terror, mas uma meditação sobre observação e isolamento. Ao transformar o olhar em um elemento ativo, Soderbergh questiona a relação entre espaço, memória e percepção. A presença que acompanha aquela família pode ser um fantasma, um resquício do passado ou apenas um reflexo da solidão moderna. O que importa é que ela está lá, silenciosa, atenta, esperando. E o espectador, inevitavelmente, sente-se parte dela e, quando esse olhar se torna ativo, quem realmente controla a história? Presence estreia nos cinemas nesta quinta-feira, dia 03 de abril.
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