Obsession, uma conversa.

Eu não vi Obsession no cinema, como gostaria. Vi em casa e não sei até que ponto isso afetou minha experiência. No primeiro Caderno de Notas mencionei sobre essa necessidade quase compulsiva de dar um veredito assim que os créditos sobem e cá estou eu, fazendo justamente isso. A diferença é que não quero tratar esse texto como uma crítica, mas como um registro de uma impressão, uma conversa sem a urgência de convencer ninguém e, principalmente, sem os olhos inquisitivos do Twitter esperando um julgamento definitivo.

Você deve concordar comigo que Bear é um protagonista covarde, patético e tóxico. Passei boa parte do filme completamente revoltada com ele. A construção desse personagem funciona muito bem. O problema é que não tenho certeza se posso dizer o mesmo do filme. Esse personagem e de como as coisas acontecem dentro do filme, entende?

Entendo o que Curry Barker está tentando fazer com a repetição. A narrativa parece querer aprisionar o espectador na mesma espiral obsessiva de Bear, fazendo com que os dias, os gestos e as situações se tornem um ciclo sufocante. Faz sentido dentro da proposta. O problema é que entender uma escolha não é o mesmo que ser impactada por ela.

No meu caso, a repetição não produziu a ansiedade nem ampliou a tensão. E, quando ela deixava de funcionar, o filme parecia recorrer à violência para recuperar esse impacto. As automutilações de Nikki, por exemplo, são imagens fortes, mas me fizeram pensar menos na personagem e mais no recurso em si. Como, naquele momento, Nikki já não é exatamente Nikki, o choque acaba se sobrepondo ao drama. Em vez de me colocar dentro da obsessão, o filme acabou me deixando do lado de fora, esperando que a narrativa desse um passo além. Em vários momentos eu sentia que já havia compreendido a proposta, mas ela continuava insistindo na mesma tecla.

Curiosamente, o que mais ficou comigo nem foi isso. Foi Nikki. Depois que o filme acabou, comecei a pensar na quantidade de vezes em que ela aparece engolida pelas sombras. Talvez seja uma leitura minha, mas fui ficando com a impressão de que o filme nunca quer que a gente conheça a Nikki de verdade. Conhecemos apenas a Nikki que existe para Bear, a projeção que ele fez dela. Que abuso desse homem! Tudo o que sabemos sobre ela passa pelo olhar dele, pelo desejo dele e, principalmente, pela obsessão dele. Quanto mais Bear acredita conhecê-la profundamente, menos eu sinto que conheço aquela mulher.

Talvez seja por isso que essas cenas na penumbra tenham me chamado tanto a atenção. Elas me dão a sensação de que Nikki vai desaparecendo aos poucos. Não porque deixa de existir, mas porque deixa de ser percebida como sujeito. Ela vai sendo reduzida a uma ideia, a uma fantasia, a um objeto de desejo. E quando num momento rápido de lucidez, ela pede por socorro e o canalha simplesmente a ignora. Talvez esse seja um dos horrores mais interessantes de Obsession, não apenas mostrar alguém sendo consumido pela obsessão, mas mostrar como a obsessão apaga a humanidade de quem é alvo dela.

É curioso porque, no fim das contas, talvez eu tenha gostado mais das ideias que o filme despertou em mim do que da experiência de assisti-lo. Há imagens excelentes, uma fotografia muito consciente e um subtexto interessante sobre masculinidade tóxica e objetificação. Ainda assim, fiquei com a impressão de que a intenção é mais forte do que a execução. A forma insiste tanto em algumas ideias que, para mim, elas acabam perdendo força em vez de ganhá-la.

Pode ser que eu reveja Obsession daqui a alguns meses e escreva algo completamente diferente. E tudo bem. Talvez essa seja justamente a graça de um Caderno de Notas: registrar o que um filme provocou em um determinado momento, sem a obrigação de transformar uma impressão em sentença.

Ao mesmo tempo, também me chamou atenção o fato de o filme não carregar aquela "cara de produção de youtuber" que muita gente associa, às vezes de forma preconceituosa, a criadores de conteúdo que migram para o cinema. Pelo contrário, Barker demonstra um olhar muito consciente para composição, iluminação e atmosfera. Talvez minhas ressalvas estejam menos na direção em si e mais na maneira como a estrutura insiste em determinadas ideias. Ainda assim, para um primeiro longa, fico curiosa para acompanhar o que ele fará daqui para frente.


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