E, antes de tudo, não. Este não é um espaço para reunir críticas que ficaram pelo caminho ou publicar textos inacabados. A ideia é outra. Será um ensaio para newsletter? Não sei…quem sabe?
Vamos lá…
Escrever sobre cinema faz muita gente imaginar que, depois de um filme, eu sempre tenho alguma coisa para dizer. A verdade é que, na maior parte do tempo, eu tenho é muita coisa para pensar.
Foi por aí que surgiu a ideia deste Caderno de Notas.
As críticas continuam por aqui, claro, mas nem toda sessão termina em texto, e nem todo filme entrega um caminho. Não sei se isso acontece com vocês também, mas comigo às vezes sobra só uma anotação perdida no celular, uma frase escrita às pressas, uma conversa que continua dias depois com a sensação de que ainda tem alguma coisa naquele filme que eu não consegui entender direito.
É um caderno que nasce sem muita cobrança. Nem minha, nem dos filmes. É só um lugar para guardar essas ideias antes que eu cometa o clássico erro de pensar "depois eu anoto" e nunca anoto. Talvez a culpa seja minha ou talvez de alguns filmes que são péssimos colaboradores. Vai ver eu só ainda não encontrei o jeito certo de conversar com eles. Sabe aquele filme que você sai do cinema decidido a escrever e ele simplesmente cruza os braços? Não oferece uma boa abertura, não sugere um caminho, não ajuda em nada. Fica ali, mudo, como se dissesse: "se vira".
Já outros fazem exatamente o contrário. Ainda durante os créditos o texto já começa a aparecer na cabeça e antes de chegar em casa, a introdução está pronta, um parágrafo puxa outro e a crítica praticamente se escreve sozinha.
O problema é que tenho uma quantidade um tanto constrangedora de arquivos começados no computador e no bloco de notas do celular. Introduções que pareciam brilhantes às duas da manhã, títulos provisórios, parágrafos soltos... Durante muito tempo achei que isso era falta de disciplina, hoje já não tenho tanta certeza. Vai saber…já me preocupei mais com isso.
Nas últimas semanas, por exemplo, assisti a A Fabulosa Máquina do Tempo, da Eliza Capai e passei dias pensando nele, muito mais do que imaginando uma crítica para ele, fiquei pensando em como ele caiu tão bem no contexto da sessão em que foi exibido. Até troquei umas rápidas palavras com a diretora, anotei algumas coisas, mas acabou que não virou texto. Pelo menos não por enquanto.
Também vi Natal Amargo, do Almodóvar e, ao contrário do impacto positivo que o filme de Eliza me causou, esse me deixou com uma sensação bem amarga. Sem trocadilho. Não foi um filme que me pegou e acho que isso acabou me afastando da ideia de escrever sobre ele. Talvez porque eu goste tanto da filmografia do Almodóvar que, quando um filme dele não funciona comigo, eu demore mais para entender se a questão está na obra ou na expectativa que eu mesma criei em torno dela.
Dragkiller, do Johnny Victor, foi outro que ficou rondando por aqui. Vi lá no Festival Boitatá e me diverti vendo como ele recupera aquele espírito dos slashers oitentistas, quando filmes como Maniac ou The Burning pareciam mais preocupados em criar uma atmosfera do que em buscar qualquer tipo de refinamento. Há uma energia muito artesanal em Dragkiller e a gente percebe os limites da produção, mas percebe também a vontade de fazer cinema. E acho que é justamente isso que me conquista. Nem tudo o que me encanta numa sessão passa pela ideia de perfeição. Não precisa, né?
Poderia falar de outros tantos filmes que passaram por aqui e também ficaram sem um texto. Alguns ainda devem ganhar, outros provavelmente vão continuar existindo só como a lembrança de uma sessão, uma conversa, uma anotação perdida no celular, ou um comentário curto no Letterboxd. E tudo bem.
Aqui, ó…não vou desenvolver essa ideia agora, talvez vire assunto para outro Caderno de Notas, mas às vezes tenho a impressão de que as redes sociais fizeram a gente desaprender a demorar nas coisas. O filme estreia hoje e amanhã já parece que todo mundo precisa decidir se ele é genial ou um desastre. Enquanto isso, eu continuo tentando entender por que uma única cena resolveu morar na minha cabeça. Como foi exatamente o que aconteceu com Criadas que achei que escreveria sobre ele logo depois da sessão, mas a crítica só saiu quase uma semana depois porque eu ainda precisava conviver um pouco com o filme.
Talvez escrever sobre cinema seja também aceitar esse desencontro de tempos. Tem filme que pede uma crítica assim que os créditos sobem, tem filme que pede silêncio e tem aqueles que só querem continuar fazendo companhia por mais um tempo.
Acho que este caderno vem para dar um lugar a essas experiências que ainda não encontraram uma forma. Ou talvez nem precisem encontrar.
Fecho o caderno por hoje.




Comentários
Postar um comentário