Antes da cabine de imprensa de Supergirl, rolou uma exibição fechada para jornalistas de cerca de trinta minutos do filme, o que bastou para que algumas reações surgissem nas redes sociais decretando o fracasso da produção. Quando o dia da cabine finalmente chegou, confesso que já fui contaminada pelo clima de “nada espero e seja o que Deus quiser”. A experiência me fez pensar sobre o que se espera de um filme de super-herói? Ou, neste caso, de uma super-heroína?
É uma pergunta que parece simples, mas talvez não seja. Esperamos grandes cenas de ação? Um espetáculo visual capaz de justificar o ingresso? Fidelidade aos quadrinhos? Ou apenas que o filme cumpra um checklist invisível que o próprio gênero criou ao longo das últimas décadas? Pode ser que, depois de tantos anos consumindo histórias de pessoas capazes de voar, atravessar paredes, viajar entre dimensões ou enfrentar ameaças cósmicas, tenhamos passado a julgar esses filmes menos pelo que eles são do que pelas expectativas que criamos sobre o que deveriam ser. Em algum momento, o gênero se tornou tão dominante que também começou a dar sinais de desgaste. Fórmulas se repetiram, universos compartilhados se multiplicaram e a sensação de novidade foi se tornando cada vez mais rara.
Falo isso de um lugar bastante específico, pois não leio quadrinhos e há anos não sigo de perto os lançamentos do gênero. O último filme de herói que vi foi justamente Superman, que funciona como uma espécie de ponto de partida para esta nova fase da DC. E, nesse sentido, é preciso reconhecer que James Gunn conseguiu algo que parecia mais difícil do que deveria: apresentar um novo universo compartilhado sem transformar o filme em uma longa propaganda para produções futuras e aí chega Supergirl tentando herdar parte dessa confiança. O ponto talvez seja que a questão não está mais em reinventar o gênero, mas em descobrir se ainda existe alguma maneira de fazer esses personagens parecerem novos e o que ainda pode ser dito sobre uma personagem que já carrega décadas de histórias.
A trama acompanha Kara Zor-El, interpretada por Milly Alcock, em uma jornada que a coloca ao lado da jovem Ruthye (Eve Ridley), determinada a encontrar Krem (Matthias Schoenaerts), o homem responsável pelo assassinato de sua família. O que começa como uma busca por vingança logo se transforma em algo maior, atravessando diferentes planetas, culturas e conflitos espalhados pela galáxia.
Dirigido por Craig Gillespie e escrito por Ana Nogueira, o filme demonstra desde cedo interesse em tratar Kara como algo além de uma simples versão feminina do Superman. A aventura espacial e os elementos de fantasia estão presentes, mas a narrativa encontra sua força quando volta seu olhar para as cicatrizes emocionais da protagonista. E uma das primeiras coisas que o filme faz bem é responder perguntas que normalmente ficam em segundo plano nas histórias do Superman. Afinal, quem era Kara antes de chegar à Terra? O que significa carregar lembranças de Krypton de uma forma que seu famoso primo nunca pôde experimentar? O filme retorna diversas vezes a esse passado e encontra ali parte de sua força dramática.
Durante décadas, Superman foi apresentado como uma espécie de ideal heroico. Seguro de seus valores, equilibrado e sempre disposto a fazer a coisa certa. Kara é sua antítese na leitura proposta por Craig Gillespie e Milly Alcock interpreta a personagem como alguém ainda tentando encontrar um lugar para si mesma. Ela carrega a perda dos pais, a destruição de seu planeta e a sensação permanente de deslocamento. É uma andarilha impulsiva, frequentemente de ressaca, emocionalmente desgastada e incapaz de criar raízes em qualquer lugar.
Essa inquietação aparece desde os primeiros minutos e ajuda a justificar suas escolhas ao longo da narrativa. Kara não parece interessada apenas em salvar o dia, ela está tentando encontrar algum lugar para si mesma depois de perder praticamente tudo e é justamente dessa ausência que nasce sua conexão com Ruthye. O relacionamento entre as duas acaba sendo o coração do filme. Enquanto Ruthye transforma sua dor em desejo de vingança, Kara enxerga naquela garota algo de si mesma. O filme entende bem que a heroína funciona como uma espécie de bússola moral para a jovem, e é nessa troca que surgem seus melhores momentos.
Outro aspecto que me agradou foi a decisão de tirar a história da Terra. Em vez de repetir cidades destruídas, governos em pânico e ameaças globais familiares, o filme abraça uma aventura espacial que atravessa diferentes mundos, sóis e espécies. Existe um prazer genuíno em explorar essa galáxia. A fotografia e a direção de arte oscilam bastante com momentos visualmente inspirados e outros bem cafonas que lembram produções de ficção científica dos anos 1990. Curiosamente, mesmo não agradando muito nosso olhar, isso acaba funcionando a favor do filme, pois existe um esforço visível para construir ambientes que pareçam habitados, marcados por conflitos e histórias próprias. A estética que cerca Krem e seus seguidores remete ao universo de George Miller. Entre armaduras improvisadas, sucata espacial e um visual de saqueadores interestelares, o filme encontra uma energia pós-apocalíptica que ajuda a diferenciar essa galáxia de cenários mais genéricos do gênero.
Ao mesmo tempo, a influência de James Gunn continua espalhada por toda parte. O humor ocasional, o gosto por personagens excêntricos e o toque de cultura pop ajudam a construir uma galáxia estranha, caótica e curiosamente acolhedora, povoada por botecos decadentes, criaturas improváveis e naves enferrujadas.
É justamente aí que aparece uma das contradições do filme. Por mais personalidade que exista em sua superfície, Supergirl continua sendo uma produção de franquia e, debaixo da sujeira espacial e da melancolia da protagonista, ainda estão presentes algumas das obrigações que acompanham praticamente todo blockbuster de super-herói e o filme não consegue escapar dessas amarras. Krem talvez seja o melhor exemplo disso. Nos quadrinhos, o personagem era um pirata espacial, aqui ele ganha contornos mais sombrios e se transforma em uma figura associada à exploração e ao tráfico de meninas, no filme, chamadas de “noivas”. A mudança torna suas ações mais repulsivas, mas não necessariamente mais interessantes. Falta presença e carisma para sustentar a posição de principal antagonista da história. Para uma obra tão interessada nos conflitos emocionais de suas protagonistas, o vilão acaba sendo surpreendentemente sem graça e o roteiro insiste em nos dizer o quanto ele é monstruoso, mas raramente consegue transformá-lo em algo mais do que uma função narrativa.
O mesmo vale para algumas participações secundárias, como Lobo, interpretado por Jason Momoa. O ator tem o carisma esperado e certamente agradará aos fãs do personagem, mas sua presença parece desconectada do núcleo emocional da narrativa. Funciona como apresentação de personagem, mas acrescenta pouco à jornada de Kara e Ruthye.
Talvez a melhor forma de definir Supergirl seja como uma experiência irregular. Há momentos em que o filme encontra uma personalidade própria, especialmente quando se concentra em sua protagonista e em suas relações. Em outros, esbarra nas mesmas limitações que continuam perseguindo boa parte dos filmes de super-heróis contemporâneos. O ritmo se arrasta em algumas passagens, certos desenvolvimentos não encontram uma resolução satisfatória e algumas escolhas parecem existir mais por obrigação do que por necessidade dramática.
A sensação que fica é a de um filme constantemente dividido entre suas melhores ideias e as obrigações de uma franquia, o que torna a experiência mais frustrante do que propriamente ruim. Existe alma aqui e boa parte dela vem do encontro entre a sensibilidade do roteiro de Ana Nogueira e a decisão de Craig Gillespie de tratar Kara menos como um ícone e mais como alguém tentando sobreviver aos próprios fantasmas. Saí da sessão sem a sensação de ter visto uma reinvenção do cinema de super-heróis. Mas, também, saí lembrando de Kara e, em um gênero que tantas vezes parece mais preocupado em preparar o próximo capítulo do que desenvolver seus personagens, isso já me parece um resultado digno.




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