A Odisseia (2026)

Enquanto assistia a A Odisseia, fiquei pensando em como escrever sobre o filme de um diretor que deixei de acompanhar há tanto tempo. Quem me conhece sabe que não sou grande fã. O último filme de Christopher Nolan que vi foi Interestelar, em 2014. De lá para cá, simplesmente não senti vontade de voltar ao seu cinema. Costumo admirar a escala das produções, mas quase sempre termino com a impressão de que elas escondem histórias que me dizem muito pouco. Personagens distantes, diálogos que raramente soam naturais e uma dificuldade constante de me fazer sentir algo por quem está em cena. Voltei por causa de Homero e da fantasia, mas saí com a sensação de que meu impasse com Nolan continua exatamente o mesmo.

Convenhamos que tem que ser muito frio para não se impressionar com o que acontece na tela do IMAX ao longo de quase três horas. Nolan sabe criar imagens gigantescas como poucos diretores hoje. O que não consigo é confundir deslumbramento com envolvimento. Por isso, reduzir minha experiência com A Odisseia a um "gostei" ou "não gostei" parece simplificar demais o que senti. Mais uma vez, saí do cinema com a impressão de que o espetáculo veio antes do drama pois há algo na forma como ele escreve e dirige que mantém os personagens sempre a uma certa distância. São pessoas que existem para sustentar uma ideia, uma estrutura, um conceito. Raramente parecem indivíduos de carne e osso. Os diálogos soam artificiais e, muitas vezes, piegas, mais preocupados em explicar o funcionamento da narrativa do que em revelar quem são aquelas pessoas.

Tenho a impressão de que Nolan constrói seus filmes de fora para dentro. Primeiro vem o mecanismo, depois a grandiosidade da encenação e, só então, os personagens. O resultado é que, mesmo diante de uma história como a de Odisseu (Matt Damon), repleta de contradições, orgulho, medo, culpa e desejo, não consegui criar um vínculo real com ninguém em cena. Nem Eumeu, vivido por John Leguizamo, um ator de quem gosto muito e que normalmente consegue chamar minha atenção mesmo em papéis pequenos, aqui, passou quase despercebido. Se nem ele conseguiu romper essa barreira emocional para mim, fica evidente que meu problema não está no elenco, mas na forma como Nolan escreve seus personagens.

E existe uma ausência que me incomodou ainda mais: a das mulheres. Não exatamente porque elas tenham pouco tempo de tela, mas porque parecem, novamente, existir apenas em função da jornada de Odisseu. É curioso porque, no poema de Homero, Penélope (Anne Hathaway), Circe (Samantha Morton), Calipso (Charlize Theron), Helena (Lupita Nyong'o) e Athena (Zendaya) não são apenas paradas no caminho do herói, elas testam sua inteligência, colocam em xeque seus desejos, alteram o rumo da viagem e ajudam a definir quem ele é. São figuras complexas e decisivas. No filme, senti que essa riqueza foi achatada, uma limitação que já percebo há algum tempo no cinema de Nolan acompanhando discussões sobre essa dificuldade em construir personagens femininas que permaneçam na memória tanto quanto suas ideias.

Ainda assim, acho injusto dizer que o filme não tem méritos. Tem, e alguns são enormes. Como alguém que é entusiasta do cinema de gênero, horror e fantasia, encontrei justamente nesses momentos o que mais me envolveu. Nolan entende muito bem a dimensão mítica dessas passagens e sabe transformá-las em experiências físicas. A sequência do Ciclope Polifemo foi, para mim, a melhor de todo o filme. Fazia tempo que uma criatura tão grande não me provocava uma sensação de perigo real. Não era apenas um gigante na tela, havia peso, tensão, suspense e uma presença monstruosa do horror invadindo a narrativa. É também nessas incursões pelo fantástico que o filme ganha mais força e me prendeu, porque abandona a necessidade de explicar tudo e simplesmente nos convida a atravessar o desconhecido.

Por fim, a essa altura, espero de Christopher Nolan exatamente o que ele entrega: escala, rigor técnico, dimensão e imagens grandiosas. O problema é que continuo esperando o que seus filmes raramente me oferecem: pessoas. Pessoas que eu me importe e que eu realmente queira levar comigo quando o filme termina. Talvez esse seja, há anos, o meu maior impasse com seu cinema. 



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