Assisti a Criadas há alguns dias e, desde então, sigo voltando para uma cena específica. Não é uma das sequências mais dramáticas do filme nem um de seus momentos mais abertamente fantásticos. É apenas uma fala. Dessas que surgem quase sem chamar atenção e que, justamente por isso, acabam encontrando um lugar para ficar. O longa de Carol Rodrigues acompanha Sandra e Mariana, interpretadas por Mawusi Tulani e Ana Flavia Cavalcanti, duas primas ligadas por uma história familiar comum e separadas pelas formas muito diferentes como essa mesma história atravessou suas vidas.
Quem já observou cores em tons opostos sabe como elas parecem criar movimento mesmo quando a imagem está completamente parada. Um azul intenso e um laranja vibrante colocados lado a lado produzem uma espécie de pulsação que dificulta o olhar a repousar em apenas um deles. Existe sempre algo chamando atenção na periferia da visão. E, quando passamos tempo suficiente olhando para essas cores, elas parecem continuar presentes mesmo depois que desviamos o olhar.
Durante Criadas, tive uma sensação parecida. Havia uma frase de Mariana funcionando como uma dessas cores. O filme seguia seu caminho, outras questões ocupavam a tela, mas aquela observação continuava vibrando ao lado de tudo. Quanto mais a narrativa avançava, mais ela parecia ganhar intensidade. Talvez porque o filme de Carol seja um filme profundamente interessado naquilo que permanece. Nas memórias que atravessam gerações, nas ausências que continuam ocupando espaço e nas marcas que uma estrutura social deixa nas pessoas mesmo quando já não é nomeada diretamente.
Em determinado momento, Mariana comenta que foi demitida porque, no cargo que desejava ocupar, não havia espaço para duas como ela. A fala passa rápido e o filme não a sublinha nem constrói uma cena inteira ao seu redor. Ainda assim, foi uma das coisas que mais me acompanhou depois da sessão.
Talvez porque ela toque numa questão que muitas vezes aparece de forma simplificada quando discutimos raça no Brasil. Mariana é uma mulher negra de pele clara que teve acesso a experiências, oportunidades e ambientes muito diferentes daqueles vividos por Sandra que é uma negra de pele retinta. As duas compartilham uma história familiar, mas o próprio filme se encarrega de mostrar que crescer sob o mesmo teto nunca significou ocupar o mesmo lugar dentro dele.
Foi justamente por causa dessa diferença que a fala me chamou atenção. Ela parece abrir uma conversa sobre algo que costuma permanecer escondido sob discursos de progresso, inclusão e diversidade. Existe uma confiança quase automática na ideia de que alcançar determinados espaços representa uma superação definitiva de certas barreiras. Como se a entrada em ambientes de prestígio fosse suficiente para resolver tensões que vêm sendo construídas há gerações.
Enquanto assistia ao filme, fiquei pensando em quantas vezes a presença de uma pessoa negra em posições de destaque é apresentada como evidência de transformação. Uma contratação ganha valor simbólico e uma promoção vira exemplo de mudança. Aos poucos, experiências individuais passam a sustentar a impressão de que a estrutura inteira se tornou mais aberta.
A fala de Mariana parece apontar para outra direção. Ela sugere a existência de limites que nem sempre são explícitos, mas continuam organizando quem pode ocupar determinados espaços e em que quantidade. Sua presença era possível e sua ascensão parecia aceitável, só que o desconforto surge quando imaginamos que essa presença deixa de ser exceção e passa a se tornar algo comum.
O que mais gosto em Criadas é que o filme não transforma suas personagens em instrumentos para explicar conceitos. Carol Rodrigues está muito mais interessada em observar como essas questões aparecem no cotidiano, nos afetos, nas memórias e nas relações familiares. A política nunca surge desligada da experiência humana, ela aparece entranhada nas conversas, nos silêncios, nos ressentimentos e até mesmo na forma como as personagens lembram do passado.
É aí que os elementos fantásticos funcionam tão bem. Os fantasmas presentes no filme não pertencem apenas ao campo do sobrenatural, eles também habitam as fotografias, os apagamentos, as histórias que foram preservadas e aquelas que ficaram pelo caminho. Estão nas relações de trabalho que se confundem com relações familiares, nos vínculos atravessados por afeto e desigualdade, e nas marcas que permanecem muito depois que os acontecimentos terminam.
Quando penso novamente naquela fala, percebo que ela me interessa menos como um comentário sobre a trajetória individual de Mariana e mais pelo que revela sobre o mundo ao redor dela. Algo profundamente inquietante na ideia de que certas portas possam se abrir sem que isso altere a lógica que controla quem entra depois.
Quando os créditos terminaram, tive a sensação de que os fantasmas de Criadas continuavam circulando fora da tela. Eles estavam naquela casa, claro, mas também pareciam atravessar escritórios, universidades, empresas e tantos outros lugares que gostam de acreditar que determinadas questões ficaram no passado.
Criadas está atualmente nos cinemas. Prestigiem!



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