Terror em Silent Hill: Regresso para o Inferno (2026)

A expectativa era razoável, até confortável, principalmente por se tratar de um retorno a um universo que conheço mais pelo cinema do que pelos jogos. Nunca tive uma relação direta com Silent Hill nos consoles, então minha referência sempre foi Terror em Silent Hill (2006), um filme cheio de excessos, é verdade, mas que ainda conseguia fazer algo básico e essencial: envolver. A gente se importava com aquela jornada, torcia pelos personagens, seguia adiante com eles. Justamente por isso, a frustração com Terror em Silent Hill: Regresso para o Inferno (2026) não vem de imediato, ela vai se acumulando aos poucos, cena após cena, até ficar difícil de ignorar.

O retorno de Christophe Gans à direção era, por si só, um motivo de expectativa. Gans não é um estranho ao terror nem ao próprio Silent Hill. Além do filme de 2006, ele sempre demonstrou interesse por atmosfera, por universos fechados, por esse tipo de horror mais sensorial. Seu nome trazia a promessa de alguém que entendia aquele mundo e poderia revisitá-lo com mais segurança. Infelizmente, essa esperança não se sustenta. O que vemos é um filme que parece conhecer bem a estética da franquia, mas não consegue transformar isso em narrativa ou envolvimento.

A nova adaptação, que estreia hoje, 22 de janeiro, acerta quase só na superfície. A ambientação é muito boa, a cidade continua sendo esse espaço enevoado, opressivo, suspenso fora do tempo. O design das criaturas é, de longe, o maior acerto do filme: perturbador, bem pensado, coerente com a mitologia. Há momentos em que tudo funciona como experiência sensorial, quase um passeio guiado por um pesadelo bem construído. O problema é que isso não segura um longa inteiro.

Quem jogou provavelmente consegue explicar a história melhor do que o próprio filme. A trama gira em torno de James Sunderland (Jeremy Irvine), um artista emocionalmente destruído que decide voltar a Silent Hill ignorando qualquer bom senso, inclusive os alertas do seu psiquiatra. Ele chega à cidade envolta em neblina, com o céu coberto de cinzas, como se o lugar fosse uma extensão direta da sua mente. James é perseguido pelas memórias de Mary (Hannah Emily Anderson), uma figura do passado que mistura amante, trauma e projeção emocional. Ela vem de uma cidadezinha isolada, fundada por um pai fanático religioso, marcada por acontecimentos violentos que o filme sugere, mas nunca desenvolve. O problema é que tudo isso é apresentado de forma confusa e fragmentada. O longa joga pistas, lembranças e imagens soltas, mas nunca se preocupa em organizar esse material. Não fica claro o que é memória, o que é delírio ou o que James está inventando para sobreviver à própria culpa. E essa ambiguidade não soa como escolha sofisticada, mas como desinteresse em construir um fio dramático minimamente envolvente.

Tudo aquilo que o primeiro filme tinha e fazia a gente gostar dele simplesmente não existe aqui. E isso causa estranhamento, principalmente porque se fala tanto em fidelidade ao jogo. Para quem não tem essa bagagem, o resultado é um terror que funciona mais como sonífero do que como experiência inquietante. O ritmo é arrastado, sem progressão, sem urgência, sem recompensa. As motivações dos personagens são frágeis, pouco claras e nada interessantes. Os protagonistas têm um carisma negativo difícil de ignorar. É complicado entender como o filme espera que a gente torça por figuras tão apáticas e vazias. As atuações acompanham esse tom engessado, como se os personagens fossem ideias mal resolvidas, não pessoas. O romance é especialmente problemático: forçado, sem química, inserido quase por obrigação. Em vez de aprofundar relações, só estica ainda mais um filme já cansativo. E o desenvolvimento simplesmente não acontece. Nem se tivesse 1h10 o marasmo se resolveria.

O ritmo, aliás, é talvez o maior inimigo de Regresso para o Inferno, pois confunde lentidão com profundidade e entrega uma experiência anestesiante. Diferente do Terror em Silent Hill de 2006, que ao menos entendia progressão e consequência, aqui a espera não constrói tensão nenhuma.

Para fechar, o final ainda consegue ser especialmente brega, destoando completamente do clima que o filme tenta sustentar. Um encerramento quase novelesco, sem impacto, que esvazia de vez qualquer tentativa de densidade. E aí fica a sensação de um filme que entende muito bem a estética de Silent Hill, mas não sabe transformá-la em drama, empatia ou envolvimento. O nome de Christophe Gans, que inicialmente trazia uma esperança legítima, pesa mais como lembrança de um passado mais funcional do que como garantia de qualidade. Bonito de olhar, difícil de acompanhar e fácil de esquecer. Dito isso, vou ali rever o longa de 2006 o quanto antes. Nem que seja só para apagar mais rápido da memória o que vi ontem na cabine.

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