CINE PE: Onde Estamos Seguros e a Necessidade de Alguns Filmes

Quando falamos de filmes que abordam racismo, existe uma tendência curiosa de exigir deles um nível de sutileza que raramente é cobrado de obras dedicadas a outros temas. Talvez porque o racismo brasileiro ainda seja tratado por muitos como um assunto que deve permanecer confortável, implícito, escondido atrás de eufemismos. Por isso, assistir Onde Estamos Seguros durante o 30° Cine PE foi uma experiência interessante não apenas pelo filme em si, mas também pela reação que ele provocou na sala. E em mim.

Dirigido por Thais Scabio e Gilberto Caetano, o longa acompanha Rafaela (Aguida Aguiar) e Felipe (Andrio Candido), um casal que, após sofrer violência racial no dia do casamento, decide se refugiar em um casarão isolado no interior de São Paulo. A promessa de segurança, porém, logo se desfaz e, o que parecia ser um recomeço, transforma-se em um confronto com traumas, memórias e monstros que habitam tanto o espaço físico quanto a própria sociedade brasileira. Foi um filme do qual saí da sessão adorando? Não. Porém, isso talvez seja o que menos importa aqui.

Onde Estamos Seguros é uma produção de baixo orçamento e isso aparece tanto em algumas limitações quanto em determinadas escolhas narrativas. Em vários momentos, o filme abraça seu discurso de forma bastante direta, seja nos diálogos, seja na maneira como constrói determinadas situações de horror. Há passagens em que as metáforas parecem se explicar mais do que deveriam e outras em que a narrativa opta pelo caminho mais evidente. São decisões que podem gerar resistência em parte do público e que, por vezes, diminuem a potência de algumas ideias. Ainda assim, conforme os dias foram passando e eu continuava pensando no filme, percebi que a questão mais interessante para mim não estava em discutir se ele era sutil o suficiente, se acertava todas as suas escolhas ou mesmo se funcionava o tempo inteiro. O que permaneceu foi outra pergunta. Por que determinadas feridas ainda incomodam tanto quando são expostas sem rodeios? Por que existe uma cobrança tão frequente para que obras antirracistas encontrem caminhos mais elegantes, metáforas mais refinadas ou discursos mais amenos, enquanto a violência cotidiana enfrentada por pessoas negras continua acontecendo sem qualquer preocupação com sutilezas?

Durante a sessão, era possível perceber o desconforto de algumas pessoas da plateia quando os diretores colocavam o dedo na ferida. E não se tratava apenas dos episódios mais explícitos de violência racial. O incômodo surgia também quando o filme apontava para as formas cotidianas, estruturais e sistêmicas do racismo que moldam a experiência negra no Brasil. Aquelas situações que muita gente prefere fingir que não existem porque reconhecê-las exige encarar privilégios, omissões e silêncios históricos.

Nesse sentido, o longa acaba criando um diálogo com um movimento que vem ganhando cada vez mais espaço dentro do terror negro. Um cinema que utiliza o gênero não apenas para assustar, mas para traduzir experiências de exclusão, violência e sobrevivência. Se nos Estados Unidos obras recentes ajudaram a consolidar esse debate, aqui no Brasil ainda estamos construindo esse caminho, encontrando nossas próprias imagens, fantasmas e linguagens.

Para quem acompanha o horror brasileiro há algum tempo, Onde Estamos Seguros também não surge do nada. Ainda que não formem exatamente um movimento coeso, filmes como Carne (2018), de Mariana Jaspe, Nó do Diabo (2017), de Ian Abé, Jhésus Tribuzi, Ramon Porto Mota e Gabriel Martins, Egum (2020), de Yuri Costa, Esta Noite Minha Alma Partirá (2025), de Igor Vasco, e Favela Amarela (2026), de Nícolas Lobato e Thiago Tuchu, ajudam a desenhar um caminho dentro do horror brasileiro interessado em discutir memória, ancestralidade, racismo e as marcas deixadas pela violência histórica. Ainda é uma produção relativamente pequena quando comparada a outras cinematografias, mas que vem ganhando força justamente por olhar para fantasmas muito particulares da experiência brasileira. Nesse contexto, a obra de Scabio e Caetano, amplia essa conversa ao colocar no centro da narrativa um casal negro em busca de acolhimento, descanso e segurança em um país que frequentemente transforma essa procura em mais uma forma de assombração.

Boa parte dessa força está na dupla formada por Andrio e Águida. Existe uma cumplicidade muito natural entre os dois personagens, algo que sustenta emocionalmente a narrativa mesmo quando o roteiro oscila. Mais do que acompanhar Rafaela e Felipe, em muitos momentos nós, espectadores negros, acabamos reconhecendo fragmentos de nossas próprias vivências naquela relação. Não necessariamente nos acontecimentos extremos, mas nos olhares, nos receios, nas pequenas tensões e nas tentativas constantes de encontrar espaços de acolhimento em uma sociedade onde o racismo pode se apresentar de forma velada, estrutural, sistêmica ou brutalmente explícita.

E, sempre que pensava nesse filme, lembrava de uma fala da curadora do Cine PE, Carissa Vieira, onde no palco ela força que nem sempre os filmes que defendemos são necessariamente aqueles que mais amamos ou os que consideramos irrepreensíveis em todos os aspectos. Muitas vezes, são obras cuja existência e presença em determinados espaços parecem importantes por aquilo que provocam. A ideia me remeteu imediatamente a uma discussão que ouvi no podcast Blecaute, de Gabriel Martins e André Félix, quando o curador Cléber Eduardo falava sobre a importância de programar filmes que, mesmo apresentando fragilidades ou limitações evidentes, carregam questões que merecem circular e encontrar um público. Não se trata de ignorar os problemas dessas obras, mas de compreender o que elas mobilizam quando entram em contato com espectadores dispostos a dialogar com elas.

Confesso que essa é uma reflexão com a qual me identifico bastante. Nem sempre me interessa defender um filme apenas por aquilo que ele acerta formalmente. Muitas vezes, me interessa defender os espaços que determinadas obras ocupam e as conversas que elas tornam possíveis. Penso que Onde Estamos Seguros se encaixa justamente nesse lugar. Sua presença no Cine PE parece menos ligada à busca por unanimidade e mais a uma aposta no debate. Afinal, curadoria também é isso. É provocar deslocamentos, gerar atritos, desafiar consensos e permitir que certos incômodos ocupem a sala de cinema. Festivais não existem apenas para exibir filmes impecáveis, eles também existem para colocar temas urgentes no centro da conversa. E, olhando para as reações da sessão e para as reflexões que o filme continuou provocando depois dela, me parece que ele cumpre exatamente essa função.

Num país que cada vez mais parece empenhado em esconder seus fantasmas, talvez seja fundamental que existam obras dispostas a iluminá-los. Porque alguns monstros não vivem em casas assombradas ou florestas escuras, eles também habitam nossas instituições, nossas relações e nossa história. E, enquanto continuarmos fingindo que não os vemos, dificilmente estaremos realmente seguros.





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